Tratamento e reusa da água; um investimento recompensador

Por Renato Rossato, Engenheiro de Desenvolvimento da REHAU

02.07.2015

Desde o começo da crise hídrica a sociedade vem cobrando do governo as respostas para a escassez de água especialmente em São Paulo. Dentre os principais questionamentos, a água de reuso é um dos temas recorrentes quando se fala em soluções para esse problema. Mas este não é um tema recente. O tratamento e reuso da água já vem sendo utilizado por estatais e também já é uma realidade na iniciativa privada. Esse recurso tem sido de grande importância para os negócios nos períodos de estiagem e vem ganhando ainda mais força com o atual cenário. Se considerarmos que, segundo a Uniagua, o setor industrial e a agricultura são os principais consumidores de água potável (22% e 70% respectivamente) e que seria possível reutilizar, pelo menos, 60% desse consumo com sistemas de reuso. Essa pode ser uma saída essencial para a crise que estamos vivenciando no país.

O Brasil, no entanto, ainda não segue o exemplo de outros países. Hoje, menos de 0,1% da água produzida no país é de reuso. Em Cingapura, por exemplo, o percentual de água reciclada chega a 30%. Especialistas apontam a água de reuso, não apenas como ferramenta para amenizar a crise hídrica, mas também como um recurso valioso para atender atividades que não necessitam água própria para consumo humano dentro dos processos comerciais e industriais. O assunto é tão importante que faz parte da Estratégia Global para Administração da Qualidade das Águas, proposta pela ONU, para preservação do meio ambiente.

Temos como exemplo nacional o projeto Aquapolo, uma parceria da Sabesp com a iniciativa privada, que distribui água de reuso para 10 fábricas da região do ABC. A economia de água potável equivale ao consumo diário de uma cidade com 500 mil habitantes. O Aquapolo tem capacidade de produzir 1.000 litros por segundo de água de reuso, mas só entrega 650 mil atualmente. A economia é de 2,58 bilhões de litros de água potável por mês. Pelas contas da Ana (Agência Nacional de Águas), com o esgoto tratado de uma cidadezinha de 20 mil habitantes seria possível assegurar água para irrigar uma área equivalente a 60 campos de futebol.

É possível planejar e instalar estações de tratamento mesmo em locais pequenos, de acordo com o perfil do negócio, e em alguns casos o lodo residual, que é parte do processo, também pode ser usado como biomassa quando seco, porém, dependendo muito das legislações vigentes. Com a reciclagem da água empresas economizam no gasto da água potável, pagando o custo de implantação do sistema para tratamento e reuso da água ao longo do tempo, e com ganhos ainda maiores em um longo prazo. 

 Vamos fazer um cálculo hipotético considerando um negócio médio, que tem um gasto mensal entre água e esgoto de R$ 1.300,00, e não uma grande indústria. É possível instalar uma estação de tratamento para reuso em um “cômodo” ou menos e os custos de implantação seriam de aproximadamente R$35.000,00 mil. Se considerarmos um número modesto de economia de água, com o tratamento de 100% da água, a economia chegaria em aproximadamente R$ 972,00 por mês. Com isso em 36 meses é possível recuperar o investimento feito na estação de tratamento da água para reuso e, daí em diante, essa economia passa a fazer parte dos rendimentos da empresa.

Em alguns projetos é possível tratar volumes maiores da água utilizada, para retornos de volumes ainda mais expressivos, como é o caso da Estação de Reabastecimento de Àguas Subterraneas - GWRS na Califórnia, que produz diariamente cerca de 265 mil m³ de água de alta qualidade, conseguindo abastecer cerca de 600 mil residentes do norte e centro do condado de Orange. O importante ao considerar estas soluções é operar com sistemas eficientes de tratamento, principalmente aqueles voltados às águas residuárias, além de uma atenção maior às legislações vigentes para o tratamento do esgoto e aquelas que deverão surgir voltadas a potabilidade das águas de reuso, algo que ainda não existe no Brasil.

Como em qualquer investimento também é importante considerar as soluções que serão compradas, considerando custos de manutenção, durabilidade, adequação do projeto ao negócio, vida útil dos sistemas, eficiência energética dos equipamentos, entre outros. E ter em mente que qualquer investimento naquilo que diz respeito ao reuso, deve visar, sempre, ganhos futuros, sejam eles econômicos ou ambientais.


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